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Terceirinho

Queria começar esse e-mail me apresentando, mas eu mesmo não sei como chamo. Atendo por “vem”, “Totó”, “Costelinha”, “Terceirinho”, assobios – se forem daquela que escolhi pra ser minha dona.

 

Sou um cachorro de rua. Apanhei um bocado, principalmente de bêbados, homens de chapéu e motoqueiros. Passei muita fome, competi com os urubus pra descolar uns restos no lixo, tomei água de esgoto e, acho que por tudo isso, adoeci.

 

Quando não tinha mais forças para andar, deitei meus ossos numa calçada em Santarém, minha terra natal. Vez ou outra, me arrastava até um coberto, por causa da chuva.  

 

Passei despercebido por bastante tempo. Dureza, gaulera, pior que ser maltratado é sentir no lombo a indiferença. Até ser enxotado é mais legal, faz o sangue correr nas veias. Agora, ficar “na sombra” … É jogo duro.

 

Mas daí, um dia, fui “descoberto” por uma cachorra muito legal, que virou minha melhor amiga. Ela ficou me cheirando e abanando o rabo. Eu, que deveria estar no auge dos hormônios – não tenho nem um ano – não tive forças nem pra dar uma piscadinha. E olha que é uma tremenda cachorra, preta, pêlo brilhante. Tentei ler seu nome no coração gravado na coleira, mas meus olhos estavam fracos como seu eu fosse um avozinho.

 

Sua dona estava do outro lado da rua com um gordão branco – primeira vez que vi urso na Amazônia – e, como a Cau (esse é o nome da bonitona) não atendia aos seus chamados, veio ver o que tinha rolado.  

 

Falou algumas palavras que não entendi – só conhecia chutes e pauladas – mas pareciam bonitas como o sol quando nasce no rio Tapajós. Voltou mais tarde com um pratinho de comida. E no dia seguinte, e no outro, e no outro.

 

Eu estava fraco de fome. Foram vários dias e refeições até que eu conseguisse levantar e acompanhá-la até sua casa, distante não mais do que um quarteirão. Tive de ficar do lado de fora, em frente ao portão, não que ela ligasse pra sujeira ou minha péssima aparência, mas o urso, né. Urso come cachorros. Senão, tenho certeza de que ela teria me convidado pra entrar.

 

O tempo foi passando e melhorei. Virei o guardião da casa. Dormia de dia e, à noite, vigiava com vontade. Passei a latir e colocar pra correr aqueles que antes me judiavam. Os vizinhos gostaram tanto do “serviço” que passaram a me tratar com consideração.

 

Sábado passado, dei um vacilo. Invoquei com uns cabras que faziam algazarra na madruga e botei pra correr, mas um, mesmo bêbado, conseguiu acertar uma sapatada. Meu nariz doeu e sangrou muito. O meu corpo todo ficou vermelho, parecia que eu tinha enfrentado leões.

 

Lôra acordou cedo, ia viajar a trabalho, e o silêncio na rua era tanto que escutei o salto que deu seu coração ao me ver naquele estado, digamos, lastimável.

 

 - Quem fez isso com você, Totozinho?

 

Quis dizer que não tinha importância, são ossos do oficio de vigilante. Doía, é verdade, mas doía mais ver seus olhos marejados e a tristeza com a maldade humana. Jurei não latir pra ninguém nas horas seguintes se ela parasse de chorar. Como eu sangrei muito, já estava cercado por urubus, e, pensando bem, era mesmo uma cena deplorável.

 

Ela acordou a vizinha – gente boa, também, dá uma força nesses assuntos caninos – e as duas conversaram sobre médico ou algo assim, mas nenhum veio me ver. Cá entre nós, eu teria me escondido, imagina se deixaria alguém chegar perto de mim sem ela por perto. Tenho medo. Medo é uma espécie de espinho na pata, a gente se acostuma com a dor, mas ele está lá, pra lembrar que, um dia, pisamos em um terreno que deixou marcas.

 

Aproveitei a chuva da tarde pra me lavar, e quando ela chegou, tardão na noite, e me viu legal, fez tanta festa que acho que até a lua sorriu!

 

Tossi a noite toda, e hoje fomos a um lugar onde as pessoas todas se vestiam de branco. Um homem de bigode me pegou no colo e falou mansinho como ela. Ainda tremo nas bases com situações novas, mas Lôra permaneceu ao meu lado, até na hora do banho. Disse que não sabia como é que tanta sujeira cabia num cachorro do meu tamanho. Exagerada. :o )

 

Tomei muitas injeções. Vermífugo, pra combater a tosse (tantos vermes me deixavam com náuseas o tempo todo), antibiótico por causa do chutão no nariz, vitaminas. O homem de branco disse que era tudo pra dar uma “arribada”.

 

Fez exame de sangue, também, e falou da suspeita de algo com um nome estranho* que fez Lôra chorar novamente, mas disse que só com o resultado em mãos é que dá pra ter certeza.

 

Quando ele perguntou se, mesmo assim, ela queria cuidar de mim (o que custaria vários dinheiros), senti o mó orgulho. Sua resposta, nariz empinado, foi clara.

 

- É pra isso que eu e o senhor estamos aqui. Faremos de tudo, e se ele morrer, será com dignidade.

 

Lôra reclama da falta de ação em LOSTM. Não entendeu ainda que seu grande lance aqui é colecionar histórias e personagens.

 

Passeio na orla, começo da noite, parada obrigatória na ripaiada. Capoeira já é quase um velho conhecido. Conversaram umas quatro vezes. Capoeira tem várias marcas, parecem facadas. Usa um colar com dentes gigantes de onça, cabelo dread. Maluco beleza no melhor estilo. Domingo, deu a ela uns dentes de bicho, peles e pêlos de presente, porque vai cair no mundo e demora uns meses pra voltar.  Seguirá a pé pela Transamazônica.

 

Metros à frente, pára pra explicar qual é a minha raça – não é óbvio? – e até deito, que a conversa vai longe.  Quando o assunto é o rei dos reis (eu, um husky, que husky não é cachorro), Lôra tem todo o tempo do mundo. Quase uma hora depois eu me encho, a gente ali, na calçada, minha dona só no charminho – ‘topo a cerveja, mas hoje não posso’. Forço a barra e a gente se manda.

 

Hora do Oscar dos Oscars. Atravessamos a praça. Um sujeito treina tai-chi – ao menos, foi o que Lôra achou. Ele pára, olha pra nós, joga a longa cabeleira pro lado e dispara.

 

- Tenho uma pastora alemã que adora nadar.

- Legal, responde Lôra.

Vou logo puxando a guia, que lá vem…

- Converso com os animais. Eles respondem. Chego a Terra e estão todos esperando pra me recepcionar.

- Qualquer animal?

Não tô acreditando. Ela vai dar corda. Pára-raios de doido ataca novamente.

- Só os que batem continência.

- Répteis estão fora, então.

- Sim. Eu sou um extraterrestre. Mas agora treino futebol, para eventuais campeonatos.

Dou uns passos. Deve ter câmera em algum lugar. É pegadinha…

- Tenho de estar pronto, em caso de guerra.

- De torcidas?

- Sim e não. Minha patente no exército é superior a de coronel. Sigilosa, porém.

- Ah, ta, então vou nessa, sou curiosa, vou querer saber qual é…

Distanciamos alguns metros. O sujeito não desiste.

- Pra namorarmos tenho de cortar o cabelo?

(Ela não vai responder, não vai, não vaiiiii)

- Pelo menos moicano.

- Ei, ei, péra ai! Onde vamos nos ver de novo? — Grita o extra dos extras.

- Na nave!

- Da igreja? Quando, quando???

 

 

 

 

 

 

Éramos três

Lôra acordou sexta-feira santa e achou que tinha morrido. É que rolava o maior coro de ave-maria-cheia-de-graça, alto mesmo, e ela despertou de uma hibernação. Um daqueles apagões que ela tem de vez em quando.

 

A mestiça tratou de desfazer logo o equivoco, abanando freneticamente o rabo. Eu nem me mexi, pra ver até onde ia a piração da dona. Segurei até a respiração, pra ela achar que tínhamos morrido logo os 3, e, glória das glórias, estávamos num velório coletivo, cães e humana, enfim, reconhecidos pelos mesmos direitos post-mortem.

 

Eu devia ser roteirista, eu sei.

 

Pois foi exatamente o que ela pensou. “Alívio. Ao menos nós três subimos juntos pro telhado, os cães não ficaram sem dono, nem serão deportados pra SP.”

 

A procissão passou e eis que nos descobrimos todos vivos e pulsantes. Daí dormimos mais um pouco, que era pra comemorar.

mocorongo express

Lôra nunca esteve tão bem-humorada desde que chegou aqui.

Avisa que vai responder a cada cartinha e bilhete logo mais, quando desenterrarem a faca de seu pescoço.

E promete: vai ter troco :-)  

Bruta

Lôra quebrou o rodo na cabeça de uma barata. Prejuízo, eu acho, mas olhem o avanço. Há pouco tempo, ela correria quilômetros alegando que esses seres estúpidos avançam. 

Mulher forte, minha dona…  

Antes de vitimar a infeliz cascuda, ainda falou vocês não vão fazer nada? Me salvem! E ameaçou: vou pegar um gato pra criar. Ou galinhas. Tenho de fazer tudo nessa casa! 

Defenderei a transformação dessa casa em zoológico. Assim, teremos sistema self-service. Comida à vontade, a qualquer hora do dia.  

Nota Vovô contou que a moça que alugou o apartamento onde a gente morava é recém-chegada da Amazônia. Passou três anos.

Donos são de Júpiter

Todo dia Lôra levanta e abre a porta pro quintal, para as nossas necessidades mais imediatas.

Demorei um tempo para atender a esse pedido dela, mas tá.  

Hoje ampliei a área de atuação. Fui lá pro fundo, procurar goiabas. Chovia, é verdade, muito, mas ela não insiste pra gente aproveitar o espaço? 

Tomei a maior bronca quando entrei em casa e dei aquela chacoalhada gostosa, pra tirar o excesso de pingos.

Alguém, por favor? Tradução humano-canês?  

Não entendo. 

Rolou um boato de que eu não vou ao quintal para não sujar as patas. Mentira. É só que gosto de uma vida mais urbana, como a Cris (alô, queria estar com você nas zoropa!), a Ale, em quem tênis fazem bolhas… E a Jama? Viajou pro mato com a gente, uma vez. Tadinha. J 

Sou cachorro de dormir em sofá e caminhar no asfalto.

Agora querem que eu vire Tarzan. Tá. 

Lôra acordou gritando Cau. Era algo como um pesadelo, a mestiça atropelada.

Lôra é quase uma ‘clown’ quando sonha. Chuta, vira na cama, fala dormindo. Haja paciência.

Acordamos assustados, claro, eu e a mestiça, que dormia de costas, as quatro patas pra cima.

No afã de atender ao chamado, virou-se e meteu o pé (dentro) da boca da Lôra. Que engasgou, resmungou e nos expulsou do colchão.

Euzinho, o santo, o husky do céu, com a minha delicadeza de ganso, paguei o pato por tabela.

Dormimos com Lôra para protegê-la do bicho papão. Ela não entende.

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